sábado, 9 de fevereiro de 2013

Plantas Nativas do Pampa


Plantas nativas do Pampa: uma beleza a ser descoberta*

O hábito de utilizar espécies ornamentais exóticas no Brasil acontece desde a época da
colonização. As rosas, por exemplo, foram trazidas pelos jesuítas nas primeiras décadas de 1500.
Ao mesmo tempo, o potencial das nossas plantas nativas tem sido muito mais reconhecido no
exterior do que no próprio país. Várias de nossas orquídeas, begônias, bromélias e alstromérias
são há muito tempo comercializadas em países com tradição em floricultura, como Holanda,
Estados Unidos, Itália, Japão, Inglaterra, Alemanha e Dinamarca.
Em endereços eletrônicos de empresas estrangeiras ligadas à floricultura é possível localizar
diversas plantas brasileiras sendo comercializadas. Sementes de árvores como periquiteira, ervamate,
jacarandá, ipê, corticeira e jerivá, podem ser facilmente adquiridas via internet! As fruteiras
nativas também mostraram ter boa aceitação no exigente mercado internacional, já que nestes
sites são comercializados butiá, maracujá, feijoa, cereja-do-rio-grande, pitanga, araçá e
jabuticaba. Até mesmo o brinco-de-princesa (Fuchsia regia), flor símbolo do nosso estado, parece
fazer mais sucesso no exterior do que entre os gaúchos, já que por aqui não há produção desta
espécie em escala comercial.
Ainda que sejam raras as informações sobre o mercado brasileiro para plantas ornamentais
nativas, é possível afirmar que a demanda não vem sendo atendida pelo setor produtivo. Também
é sabido que nossa legislação proíbe a coleta e a comercialização de plantas nativas, e, apesar
disso, quem já não se deparou com bromélias não cultivadas, extraídas das matas, e oferecidas
livremente pelas ruas do Laranjal? E o que dizer das orquídeas vendidas na beira das rodovias
gaúchas? Por acaso você não conhece ao menos uma pessoa que já comprou samambaias ou
palmeiras obtidas de forma extrativista e ilegal? Pois estas plantas vêm sendo comercializadas
apesar dos riscos de autuação e dos danos causados ao ambiente, e muitas delas sequer
resistem fora de seu ambiente natural! De qualquer modo, este pode ser um indicativo de que, se
Publicado em: Diário da Manhã, em 17/6/2008, pág. 16; Página Rural, em 17/6/2008.
inseridas na cadeia produtiva e dentro das leis ambientais e de proteção, as plantas nativas são
capazes de ocupar um espaço crescente no mercado da floricultura.
Já há consciência de que, nas cidades, as plantas nativas podem atrair animais desejáveis e cada
vez mais raros, como pássaros e borboletas, além de pequenos insetos em busca de pólen e
néctar. Na sinalização de rodovias, o uso de árvores nativas pode contribuir para a criação de
corredores ecológicos. Na arte floral, flores e plantas nativas podem agradar a um público que
está sempre procurando por novidades.
Considerando o crescente interesse por plantas nativas, é preciso passar a incentivar a produção
em escala comercial, em viveiros devidamente licenciados. Estimular a produção e o uso de
espécies nativas em arranjos florais ou no paisagismo, no entanto, não deve ser encarado como
um estímulo para o extrativismo, mas sim como um incentivo para a pesquisa.
Em Pelotas, a Embrapa Clima Temperado vem desenvolvendo, juntamente com bolsistas de pósdoutorado
do CNPq e da Fapergs, um trabalho de prospecção, de avaliação da potencialidade de
uso, e de propagação de espécies ornamentais nativas do Bioma Pampa, com resultados
bastante animadores.
A indicação de espécies nativas para a arte floral ou para o paisagismo deve atender a alguns
pressupostos básicos, que foram estabelecidos como ponto de partida destas pesquisas. Para a
arte floral, as flores ou folhagens de corte devem apresentar beleza, inovação, arquitetura
equilibrada, coloração que permita múltiplas combinações e comprimento de haste que atenda a
diversas propostas de uso. Para o cultivo e a comercialização, é recomendado que a espécie seja
de fácil produção, ao menor custo possível, apresente boa durabilidade após o corte, que suporte
o transporte a longas distâncias e possa ser armazenada por um longo período, para ampliar o
prazo de comercialização. Para o paisagismo, interessam especialmente a plasticidade, o porte, a
textura, o tamanho e a coloração das flores, folhas e caule, a adaptação ao ambiente de uso, a
resistência a pragas e moléstias, a atração da avifauna local e o tipo de sistema radicular, entre
outros.
Além de valorizar a biodiversidade local, a inserção de espécies nativas na floricultura é uma
forma de fortalecer as identidades regionais, representando um diferencial em um mercado
altamente competitivo, continuamente em busca de diferenciais e cada vez mais inclinado a
produtos considerados de baixo impacto ambiental e ecologicamente corretos. A prospecção de
novas plantas ornamentais, a partir das espécies nativas, representa um grande potencial de
produção e comercialização, tanto para o mercado interno quanto para a exportação, que poderá
Publicado em: Diário da Manhã, em 17/6/2008, pág. 16; Página Rural, em 17/6/2008.
crescer ainda mais a partir da criação de leis nas esferas municipal, estadual e federal.
As fotos mostram inflorescências de Eryngium eriophorum, uma das espécies nativas do Bioma Pampa com
elevado potencial ornamental, pesquisadas na Embrapa Clima Temperado. Fotografia: Rosa Lía Barbieri.
Publicado em: Diário da Manhã, em 17/6/2008, pág. 16; Página Rural, em 17/6/20


Elisabeth Regina Tempel Stumpf
Bolsista pós-doutor júnior do CNPq
Cátia Maria Romano
Bolsista recém-doutor da Fapergs
Rosa Lía Barbieri
Pesquisadora da Embrapa Clima Temperado
barbieri@cpact.embrapa.br


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